Boston, Outras Dicas

100 dias morando em Boston

Estamos há pouco mais de 3 meses morando nos Estados Unidos. 100 dias para ser exata. Ao mesmo tempo que parece que já faz uma eternidade que saímos de casa, que esvaziamos nosso apartamento, dissemos “até logo” para família e amigos; também parece que foi ontem que começamos a reconstruir nossa vida quase do zero.

Tudo o que tínhamos foi resumido em 5 malas, chegamos matriculados em um curso de inglês e sem ter onde morar. Nossa única referência, além da escola de inglês, era uma amiga de Floripa que já morava aqui.

Em 100 dias muita coisa aconteceu, mas ainda me sinto uma formiga vivendo em um mundo enorme a ser descoberto. É muito estranho ter quase 30 anos e precisar reaprender a usar os correios, a pagar uma conta no banco, a recarregar o cartão do passe de ônibus. É pouco tempo para assimilar uma cultura e desbravar uma cidade de mais de meio milhão de habitantes. Mas nesse curto tempo já alugamos apartamento, estudamos, juntamos papelada para transferir nosso visto para outra instituição, tivemos que lidar com a burocracia em diversas horas… Tivemos momentos felizes e alguns de angústia também.

Viver fora do Brasil é mesmo um desafio, uma constante de sentimentos e aprendizado. Já tínhamos viajado muitas vezes para cá, mas mudando nosso status de viajantes para residentes, muita coisa mudou. Tudo está sendo diferente.

A PRÁTICA DO DESAPEGO

O primeiro dilema que tivemos que lidar antes mesmo de desembarcar nos Estados Unidos foi praticar o desapego. Gente! Só quem já passou por isso sabe como é difícil e dolorido desfazer-se de praticamente tudo conquistado/comprado durante anos. Colocamos preço em quase tudo que tínhamos dentro de casa, chamamos a família e amigos e vendemos. Foi o carro, foram os móveis, eletrodomésticos, decoração, roupas, acessórios, maquiagens… Não foi fácil, mas estávamos felizes que íamos realizar um sonho. E, no fim das contas, foi libertador. Esse bazar nos fez perceber o quanto acumulamos coisas desnecessárias e que podemos viver com bem menos, consumir muito menos. E isso significa mais $$ no bolso.

Nossa querida Boston.
Nossa querida Boston.

MENOS É MAIS

Aqui em Boston, assim que alugamos nosso apartamento, compramos umas coisas básicas (cama, sofá, TV), ganhamos outras e até catamos uma mesa de jantar no lixo do prédio ao lado. Hoje, temos umas 3 panelas, 4 pratos, 4 copos 8 copos… Nada de liquidificador, batedeira, micro-ondas. E aí eu percebi que essas coisas são práticas, mas não essenciais. A gente consegue viver sem elas. E essa lição vou levar para o resto da vida, em Boston, em Floripa ou qualquer outro lugar do mundo.

Lar doce lar!
Lar doce lar!

COMPRAR, COMPRAR, COMPRAR!

Falando ainda sobre essa questão do “ter”, é um pouco verdade que aqui é o país do consumo. Mas não são todas as pessoas que compram loucamente. Os supermercados, farmácias e algumas lojas que vendem de tudo têm preços bem em conta. E quanto maiores as porções, mais baixos os preços. Acaba que a gente compra tudo em tamanho G ou GG. Mas para comida acho OK, se ela for consumida, não há problema em comprar em quantidade. O problema, de novo, é quando compramos coisas desnecessárias. Outro dia no Walmart, fiquei com vontade de comprar pomada pra coceira só porque o tubão era 0,88 centavos, hahahaha! Mas me conscientizei a tempo de que ninguém aqui ia usar, e não precisava dela só porque era ridicularmente barata. Resumo da ópera: se a gente não tem auto-controle, pode sim entrar na onda do consumo desenfreado.

ALIMENTAÇÃO

Nessa altura da conversa, até lembrei do post que fizemos sobre comida saudável nos Estados Unidos (dá uma olhada). Muita gente no Brasil ainda pensa que aqui só se come besteira. Mas isso é pura balela, encontramos as mesmas comidas no supermercado, desde arroz branco, integral, feijão preto, às mesmas carnes, mesmas frutas e verduras…

O problema é que um hambúrguer no McDonalds custa $1, o mesmo preço de uma banana na Starbucks. Poucos serão aqueles que vão optar pela banana, não é? Essa é a questão. Comida congelada e fast food tem igual no Brasil, mas os preços é que são mais baixos, fazendo com que muita gente (principalmente os turistas brasileiros), optem pela opção menos saudável. Uma dica se você vem viajar é ir no supermercado e comprar frutas e snacks mais saudáveis. E carregue com você durante a viagem, reduzindo o consumo de besteiras ao longo do dia… E assim você não vai embora levando consigo esse mito de que os americanos comem mal. Só come mal quem quer.

LIDANDO COM PRECONCEITOS SOBRE O BRASIL

As diferenças culturais também são inegáveis e é verdade que alguns estereótipos como o da expansividade dos latinos são verdadeiros. Na escola de inglês eu pude perceber como brasileiros e sul-americanos em geral falam e riem mais alto, tocam na pessoa enquanto conversam, dão beijo no rosto. Coisas que os americanos não fazem. Nós somos mais afetivos. Eles não são antipáticos ou desinteressados, são apenas mais reservados. Digo o mesmo dos asiáticos (japoneses e chineses são mais quietos e observadores, enquanto sul-coreanos são tipo “gangnam style”). Enfim, são diferenças que a gente precisa aprender a lidar. Eu, por exemplo, estou me policiando pra falar mais baixo e gesticular menos, pois não quero assustar ninguém! Hehe

Outros estereótipos negativos, infelizmente temos que lidar. Gente que pergunta como é na Amazônia (“você mora lá perto?”), “existe mesmo anaconda?”, ou ainda “achei que abaixo do Rio de Janeiro não existia mais nada” (juro que ouvi todas essas). Mas nenhuma vez senti que foram perguntas por sacanagem ou discriminação, acho que é mais curiosidade de pessoas que conhecem pouco nosso país. Muitos acham que falamos espanhol, outros não entendem porque falamos português, muitos não têm nem ideia de onde fica o Brasil… Minha solução é doutrinar essa gente, quando tenho paciência até abro um mapa, mostro as regiões, explico porque eu nunca fui na Amazônia, explico que existe vida além do carnaval do Rio.

E aproveito essas oportunidades pra fazer as minhas perguntas absurdas também. Se o chinês me indagou sobre a anaconda, aproveitei e perguntei como era esse negócio de comer carne de cachorro no país dele. Sem ofender, apenas para sanar também as minhas dúvidas 😉 No fim das contas, apesar da origem e culturas diferentes, as pessoas que mudam de país são muito parecidas, têm objetivos comuns e são sedentas por aprender mais e descobrir um, ou vários, mundos novos. O negócio é abrir a cabeça, ser humilde e um pouquinho paciente.

Quando completamos 1 mês aqui!
Quando completamos 1 mês aqui!

SER PACIENTE E ACEITAR AJUDA

Morando em um país diferente do nosso, pode ter certeza que erramos e pagamos alguns micos. Faz parte do aprendizado. E, no fim das contas, viram histórias engraçadas pra contar para os amigos (como quando eu voltei do mercado de ônibus e deixei meus repolhos rolarem pelo corredor até o fundo do veículo, ou ainda quando fui comer num restaurante venezuelano e falei uma mistura de inglês, espanhol e português com a mulher, e ainda assim ela não me entendeu).

No exterior, as tarefas mais simples podem se tornar um grande desafio. Seja pelo idioma, ou porque não sabemos nem como começar a buscar uma informação. Há sempre momentos de angústia, dificuldades que precisamos ultrapassar com paciência e muitas vezes com ajuda de alguém. Pedir ajuda pode parecer um sinal de fraqueza. Mas a verdade é justamente o contrário! Para se pedir ajuda, é preciso ter muita coragem. Coragem para enxergarmos que sozinhos não podemos dar conta de tudo e nem precisamos! Nossa amiga que já morava aqui em Boston, nos deu abrigo até que conseguimos achar nosso apartamento, nos ajudou no processo de aluguel, e em muitas outras situações. Serei eternamente grata pelo amparo, em um momento de adaptação que não foi e não está sendo fácil.

Por essas e outras, tenho procurado abandonar a vergonha na hora de perguntar, de errar, de pedir algo pra alguém. As pessoas no geral se sentem úteis ajudando, e no pior dos cenários, só vou receber um não.

Aprendendo a arte da paciência com os sapos do Frog Pond.
Aprendendo a arte da paciência com os sapos do Frog Pond.

CONFUSÃO ENTRE IDIOMAS

Agora começo a entender aquele povo que mora uns anos fora do Brasil e começa a misturar as línguas. Não é por ser metido, é que o cérebro realmente dá um tilt (olha eu, misturando idiomas!). Às vezes, a gente acidentalmente deixa uma palavra de outro idioma escapar, tanto numa conversa em português quanto em inglês. Quantas vezes em lojas o atendente me disse “Thank you” e eu soltei um “De nada”, automaticamente. Tem vezes também que a gente pensa uma maneira de dizer alguma coisa, e a ideia perfeita está em inglês, e ficamos procurando uma maneira de traduzi-la, que muitas vezes não vem. Quando interagimos com uma língua estrangeira diariamente, aprendemos e desaprendemos muita coisa, ao mesmo tempo.

É DIFÍCIL NÃO COMPARAR

Morando fora fica mais fácil de perceber as coisas ruins do nosso país. É difícil não comparar o sistema de transporte público, a segurança, o trânsito, a organização de algumas coisas. Mas também, você passa a ver e valorizar as coisas boas da sua terra. Mesmo aquelas que parecem pequenas. Hoje, eu acho a natureza da minha cidade natal ainda mais bonita do que achava antigamente, sinto falta da comida local, do sushi feito no Brasil (o daqui tem um gosto estranho), do sistema de saúde pública (vacina de graça é luxo!), das churrasqueiras à carvão, sinto falta até da programação da Globo!

Cada país têm suas vantagens e desvantagens. Em serviços públicos, acho que os Estados Unidos estão muito à frente. O atendimento é mais educado, os sistemas são mais rápidos e modernos. Apenas a saúde pública é que fica atrás. Não pela qualidade do serviço, que aqui é de primeira. Mas porque tudo é pago, e bem caro. Pelo menos em Floripa, nossa cidade, o sistema municipal de saúde é bem bom, e tenho muitos amigos que nem plano de saúde têm. Usam apenas os postos de saúde e estão bem servidos.

Outra comparação inevitável é do preço dos produtos e serviços. Os produtos aqui são bem mais baratos. Mesmo com a desvalorização do real, ainda é mais vantajoso comprar a maioria das coisas aqui. São preços justos, que não vêm carregados com trocentos impostos como no Brasil. Por outro lado, os serviços são bastante caros. Eu costumo dizer que o que é produzido por máquinas é barato, o que é feito pela mão do homem, sempre sai mais caro. Se quiser fazer a unha, lavar o carro, achar alguém pra cortar grama da sua casa ou consertar um vazamento… prepare-se para pagar um preço alto por isso! Mas, ao menos, isso quer dizer que esses profissionais são valorizados, recebem um salário mais adequado ao serviço que prestam.

Metrô de Boston, nosso transporte de todo dia.
Metrô de Boston, nosso transporte de todo dia.

E O PIOR DE TUDO – A SAUDADE

Uma das questões que sempre via a galera que mora no exterior reclamando, era da saudade da família. Já sabia que ia ter que conviver com isso. E aqui percebi que é ainda mais difícil. A gente se fala sempre por telefone, Skype, Facetime, Whatsapp. E sou grata por ter tanta tecnologia ao nosso favor. Mas tem horas que parece que não é suficiente. Acabamos perdendo momentos da vida das pessoas que mais amamos: festas de aniversários, casamentos, reuniões de família, momentos felizes ou tristes… Infelizmente é algo que precisamos aprender a conviver.

Eu sempre procuro mentalizar que a distância não me afasta das pessoas que amo. Meus familiares e amigos estão sempre comigo, em pensamento ou na telinha do celular. Mesmo de longe, procuro acompanhar e dividir angústias, medos, conquistas. Tem dias que até esqueço que estou separada deles por tantos quilômetros.

E claro, morando fora a gente precisa fazer novas amizades, inventar uma “nova família”, que possa estar com a gente e nos manter com a cabeça ocupada, principalmente nos dias que a saudade apertar 🙂

Pra sanar um pouco da saudade...
Pra sanar um pouco da saudade…

Bom pessoal, já falei pra caramba. Mas queria dividir essas reflexões com àqueles que estão pensando em embarcar nessa aventura, ou outros que como nós já estão nesse barco, vivendo as mesmas alegrias e incertezas. É bom saber que não estamos navegando sozinhos nesse oceano louco, não acham? Quando completar 150, 200, 300 dias de Boston, talvez eu volte a escrever mais sobre nossa adaptação.

Té a próxima! 👍

Praia de Plymouth <3
Praia de Plymouth <3

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Administradora, eterna estudante, cozinheira nas horas vagas e viciada em maquiagem.