Outras Cidades de Massachusetts

Salem: a cidade das bruxas

Você conhece as Bruxas de Salem?

É bem provável que já tenha ao menos ouvido falar do filme (que apesar de um pouco violento, passava na sessão da tarde – hoje não mais, né?).

Salem Visitor Center
Salem Visitor Center

Pois bem, estivemos na pequena Salem em Massachusetts, cidade bem próxima de Boston, e que foi palco principal do julgamento das “bruxas”. Onde vários julgamentos e execuções foram realizados entre fevereiro de 1692 e maio de 1693.

Uma rápida pincelada sobre o Julgamento

Pense que você está em 1692, vivendo em uma colônia da Inglaterra, mas bem distante dela, em uma terra rodeada por indígenas e florestas estranhas. Você segue o rito puritano (futuro presbiterianismo), onde cada ação do seu dia é recheada do medo de ir para o inferno. Nessa vila, música e dança são proibidos.

Salem Museum
Salem Museum

O seu dia é mais ou menos o seguinte: rezar – trabalhar – rezar – comer – rezar – trabalhar – rezar – comer – rezar – dormir.

Pois é. A vida era bastante repetitiva e monótona nessa colônia no século XVII. E por isso, muitas histórias de bruxas, demônios e outras bizarrices rolavam soltas. O povo se ocupava e distraía com as fofocas e os poderosos aproveitavam para forçar os mais fracos a fazerem o que queriam. Usavam dessa atmosfera de medo para mostrar que eles eram os únicos que poderiam proteger a população. E assim permaneciam no topo da sociedade.

Esse cenário de medo era intensificado pela distribuição de panfletos incitando a população a fazer algo contra o “capiroto”. Os colonizadores de Salem tinham medo que as gerações seguintes se perdessem, afastando-se da Igreja e colocando sua posição social em risco. Queriam que todos seguissem a mesma rotina, obediente às normas.

Uma das ruas centrais em Salem
Uma das ruas centrais em Salem

Os primeiros casos de “maldição bruxólica” relatados na cidade aconteceram com a filha e a sobrinha de um pastor. Elas diziam estar sentindo serem perfuradas por alfinetes, tendo surtos de gritaria e arremesso de objetos nos outros.

Religiosos e autoridades locais não conseguiram identificar os motivos dessas crises. Logo, trataram de culpar alguém por aplicar uma bruxaria nas meninas. Nesse caso, os azarados foram três pessoas “indesejadas” da comunidade: uma mendiga, uma mulher que não gostava de ir à missa e uma escrava negra. Respectivamente: Sarah Good, Sarah Osborne e a mais famosa de todas, Tituba.

As acusações continuaram e mais 4 mulheres foram presas. Uma delas, apenas por expressar a incredulidade em relação à bruxaria. Assim, em maio de 1692, os presos já somavam mais de 62 pessoas. Todos acusados de serem bruxos, aprendizes de bruxaria ou simpatizantes.

Monumento atrás do Visitor Center
Monumento atrás do Visitor Center

Em 2 de junho, a situação piorou. Começaram os julgamentos por acusações banais, como não vestir-se conforme o padrão local, não trabalhar tempo suficiente e aparecer nos sonhos de outras pessoas (mas que na verdade tinham motivação econômica ou apenas a falta de simpatia dos poderosos).

Em 10 de junho, a primeira pessoa foi condenada e executada na forca.

Nesse meio tempo, a escrava Tituba assumiu que fazia feitiçaria e que existia um conselho de bruxos na cidade, aumentando ainda mais o burburinho em torno da situação.

Além de um morto na prisão, até setembro desse mesmo ano, mais 18 pessoas foram executadas. Um deles, esmagado por pedras numa tentativa de conseguir uma confissão. As execuções eram realizadas pelos próprios aldeões, pessoas com as quais as vítimas haviam crescido, trabalhado e que as conheciam pessoalmente. Tudo causado pelo medo e pela desconfiança que surgiu em toda a cidade.

Detalhe da casa ao lado do cemitério
Detalhe da casa ao lado do cemitério

A bizarrice começou a mudar em janeiro de 1693, quando os casos foram repassados a juízes de fora da região. Logo, quem não havia sido executado, fugido ou morrido na prisão, acabou inocentado. Sua vida não deve ter sido fácil depois disso, mas ao menos estavam vivos.

Os julgamentos de Salem são usados até hoje como exemplo de histeria coletiva, o perigo de falsa acusações e a influência da religião na sociedade. Nenhum historiador chegou à conclusão do que realmente aconteceu. Existem várias explicações para as supostas possessões: que as meninas foram envenenadas por algum alucinógeno natural (por meio de alimentos) ou ainda que tenham contraído alguma doença da época, como a varíola. E que as possessões que aconteceram depois, poderiam ser sintomas psicológicos nas mulheres, de tanto medo que tinham de serem “possuídas”. Sobre a confissão de Tituba, acredita-se em várias hipóteses: que ela vivia uma vida sofrida e, assumindo a bruxaria, a morte lhe traria a liberdade; que ela estava apenas colocando lenha na fogueira e se divertindo ao ver os brancos enlouquecerem; ou ainda que ela poderia mesmo realizar ritos parecidos com feitiçaria, uma vez que seguia a religião caribenha, lugar de onde veio, chamada Vodu. Mas que nada teria a ver com possessões ou com o diabo.

Essex Street em Salem
Essex Street em Salem

Salem, a cidade

A cidade fica a pouco menos de 25 km de Boston, ou 40 minutos de carro, no sentido nordeste no Estado de Massachusetts. Tem uma população de 41 mil pessoas, segundo o último censo norte-americano.

Ela é bem pequena e vive basicamente do turismo em relação aos julgamentos e de sua região portuária.

Quando eu digo que vive do turismo bruxólico acredite, você pode encontrar tudo relacionado ao tema na cidade. A começar pelos carros da polícia que contam com um logo que remete ao fato, a escola local se chama Witchcraft Heights e assim vai…

E nem preciso dizer que a cidade é invadida por uma horda de turistas no Halloween (31 de outubro). Temos um post contado mais sobre isso aqui.

Vale expressar um fato: hoje, só há uma casa ligada aos julgamentos, a casa do juiz Jonathan Corwin, que ainda resiste em pé e é popularmente chamada de Witch House (criativo). Isso porque a cidade teve um incêndio de grandes proporções em 1914, deixando mais de 3.500 famílias desabrigadas.

Detalhe da placa da Witch House em Salem
Detalhe da placa da Witch House em Salem

Nessa casa, você pode ver como era a vida dos colonizadores no período histórico, além de sentir um pouco de claustrofobia na escada que leva ao segundo andar. O ingresso é um pouco caro mas vale a pena, dada a importância histórica. E claro, os guias vão te lembrar sempre de não tocar em nada. A casa é toda mobiliada, com móveis originais da época, recolhidos dos destroços após o incêndio.

Witch House em Salem
Witch House em Salem

Outras visitas que valem a pena: a Casa Pickman, a mais antiga da cidade e que conta com o memorial das vítimas na parte de trás. Além disso, ela fica próxima ao Old Burying Point, ou Charter Street Cemetery, o cemitério mais antigo da cidade e com uma aparência meio assustadora no inverno (rende boas fotos).

Charter Street Cemetery
Charter Street Cemetery

Também, o Museu Peabody Essex que é um dos mais antigos dos Estados Unidos e tem uma exposição permanente sobre as ligações marítimas das colônias com a Ásia, particularmente a China.

Pet Cemetery!
Pet Cemetery!

Perto do mar, há o Salem Maritime National Historic Site, que mantém intacta essa parte portuária, mostrando como ela era no período colonial.

Na região central, há também um museu de cera com os principais personagens da história local.

Os turistas geralmente ficam em torno da Charter e da Essex Street e seguem as rotas bruxólicas, sendo um dos pontos mais visitados a estátua dedicada a atriz Elizabeth Montgomery na série televisiva Bewitched (A feiticeira).

Luciane e a estátua Bewitched
Luciane e a estátua Bewitched

Vale conhecer a cidade principalmente por ser um ponto relevante da história norte-americana, é uma região bem agradável e o povo é bastante simpático (e estranho).

Luciane Bruxólica
Luciane Bruxólica

As fotos desse post são minhas e da Luciane.

Té a próxima!

Fotógrafo, barbudo, viciado na Craigslist e wikipedia ambulante.