Boston

Um ano morando em Boston

Nesse mês de abril completamos 1 ano morando em Boston! 🎉

Ao longo desse tempo foram tantos desafios, angústias, medos, alegrias e tanto aprendizado, que resolvi voltar a falar sobre as experiências relatadas nesse texto aqui. Ao relê-las 9 meses depois, percebo quanta coisa ficou ainda mais evidente e quantas outras já mudaram.

Pelas ruas de Boston ❤
Pelas ruas de Boston ❤

Viver com menos – ainda tenho esperanças!

Pois é, depois de relatar que estávamos aprendendo a viver com menos, admito que já temos mais pertences!😂 Nosso apartamento mudou bastante desde o último post, mas em nossa defesa, preciso dizer que continuamos praticando a economia. O que acontece é que estamos virando craques em achar móveis legais para doação. Damos aquela limpada e reformada básica e tcharan! Móvel novo em casa e nem um centavo a menos no bolso. Tô ficando viciada nessa coisa de garimpar no “lixo alheio”.

Coloquei entre aspas, pois é bem comum que as pessoas coloquem móveis na calçada para outros levarem, sem na verdade misturar com lixo ou sujeira. Como falei no post dos 100 dias, aqui é mais barato comprar algo novo do que consertar o usado. O que resulta em tesouros pela rua, todos os dias.

Já achamos mesa, micro-ondas, mini-forno elétrico, aparador para a sala, gaveteiro, abajures, etc. Que loucura, não? E fico pensando que, se um dia voltarmos para o Brasil ou mudarmos para outro país (quem é que sabe?), vai doer menos desapegar dessas coisas, afinal nem pagamos por elas.

Por outro lado, também tivemos tempo de comprar algumas utilidades (tipo liquidificador, batedeira, secador de cabelo). Estamos focando naquilo que realmente vamos usar.

Atualmente, temos o básico para viver com conforto. Não é a casa dos sonhos e volta e meia dá vontade de investir na decoração. Mas refletindo bem, concluímos que vale mais acumular experiências do que coisas. Viajar, passear, conhecer outras pessoas… Tudo isso é bagagem que não pesa na mala e que você carrega pro resto da vida 😍

Nossa sala, simples mas com tudo que precisamos <3
Nossa sala, simples mas com tudo que precisamos!

Além disso, nesse 1 ano aqui, eu fiz algo que jamais imaginei que conseguiria: não comprei praticamente nada de roupas, calçados e maquiagem. Consigo contar nos dedos das duas mãos os itens que adquiri nesse período. Para algumas pessoas pode parecer normal, para mim, é uma baita vitória.

Desapegar não só do que é material

Bom, já falei muito sobre ter e consumir menos. Mas o desapego quando a gente se muda para o exterior é ainda mais amplo que isso: desapegamos de pessoas, de comidas, da rotina, de hábitos, manias, enfim, de toda uma vida que tínhamos antes da mudança.

No post dos 100 dias, por exemplo, eu falava que sentia falta dos canais de televisão do Brasil e que não tinha ainda achado um sushi do meu gosto. Logo que chegamos, eu estava feliz e empolgada com as novidades, mas ainda sentia saudade dos meus restaurantes favoritos em Floripa, sentia falta dos programas de fim de semana que fazíamos por lá, essas coisas…

Nossa vida era ótima no Brasil, por isso creio que foi ainda mais difícil se desligar daquela rotina! Agora, um ano depois, posso dizer que estamos bem mais incorporados à vida local. Já não sinto a menor falta da Globo e encontrei meu sushi favorito.

Mais que isso, curtimos a TV americana (e o Otávio é viciado em canais de notícias), lemos os jornais locais, sabemos o que gostamos de fazer na cidade, frequentamos a biblioteca municipal, temos restaurantes favoritos e também uma lista daqueles que não fazem nossa cabeça.

Por outro lado, também já temos algumas reclamações. Nunca vamos nos acostumar com noticiários que repetem as mesmas notícias às 6h, às 7h, às 8h e às 9h da manhã. É isso mesmo, o jornal da manhã fica em loop até o meio da manhã. A mesma coisa no jornal da noite, começando às 16h indo até 19h. Outra coisa é a quantidade de vezes que o metereologista aparece para dar a sua previsão. Em média, a cada 10 minutos. Há um certo fanatismo pelas condições da temperatura e do trânsito.

À comida, eu me adaptei rapidinho ;)
À comida, eu me adaptei rapidinho 😉

Mas enfim, é vida nova mesmo, numa realidade totalmente diferente e desafiadora. E hoje, diante de tudo que passamos, eu arrisco dizer que nada melhor do que se afastar da sua rotina para se conhecer de verdade. Você vai entender melhor seus gostos, fraquezas e forças. E também descobrir àquelas coisas e pessoas que não fazem falta. Porque sim, você vai chorar de saudade da família e de alguns amigos, mas vai acabar descobrindo que foi positivo ter se afastado de certas pessoas ou talvez de um emprego, de um hábito que lhe fazia mal e assim vai.

Respeitar e ser respeitado

Uma das dezenas de coisas boas de morar nos Estados Unidos é que aqui as pessoas se respeitam. Ninguém repara na sua roupa, na sua falta ou excesso de maquiagem, em qual é o tipo de trabalho que você exerce, se você anda de carro ou de ônibus. No geral (porque sempre tem uns malas, né?), todos se tratam como iguais. Cada um vive sua vida e respeita o espaço e a individualidade do outro. E isso eu até diria que são pequenos atos de respeito (pequenos mas não menos importantes, ok?).

Podemos falar de questões com dimensões bem maiores, como o respeito à escolha sexual dos indivíduos, respeito ao idoso, às pessoas com deficiência… Os EUA não são o paraíso, mas posso dizer que sim, os americanos estão bem mais à frente dos brasileiros na discussão e concretização dos direitos dos mais diversos grupos sociais.

Só pra dar um exemplo: aqui em Boston, em todos os lugares que visitamos, públicos ou privados, sempre vimos entradas e passagens acessíveis, com rampas, elevadores, corredores largos, etc. Todos os ônibus da cidade são acessíveis, assim como as estações de metrô e os trens. Um pessoa na cadeira de rodas (ou uma mãe com um carrinho de bebê) pode se deslocar como qualquer outra pessoa.

Além disso, aqui as leis são respeitadas. Você, por exemplo, nunca vai conseguir comprar bebida alcoólica sem apresentar sua identidade, provando que é maior de 21. Pode ter 70 anos, rugas e cabelos brancos, o vendedor vai pedir seu documento simplesmente porque é a lei. E as leis funcionam. Na maioria das cidades, as boates fecham às 2h da manhã. Nem um minuto a mais, deu 2h, as pessoas são praticamente enxotadas pra fora. Multa de trânsito não se discute com o policial, afinal ele está apenas cumprindo o seu trabalho, e há outros meios de recorrer. Coisas assim, sabe?

Sei que fazer uma comparação crua com o Brasil é um pouco injusto, pois existem mil fatores envolvidos. Mas convenhamos, tem horas que parece que as leis no Brasil são opcionais, todos têm uma justificativa plausível pra burlar alguma norma e ainda acham que estão certos.

Mesmo coisas pequenas como mudança de horários de ônibus são avisadas com antecedência de algumas semanas, e às vezes, até de meses. Tudo para que todo mundo possa se planejar e sofrer menos impacto. Isso é o que eu chamo de respeito.

Segurança

Sinceramente, acredito que, se fossêmos embora hoje, o que mais sentiríamos falta é do sentimento de segurança que morar nos Estados Unidos nos dá. Mesmo com os loucos eventuais que encontramos na rua ou no metrô (pessoas que falam sozinhas é o mais comum), e mesmo com o medinho de um possível ataque terrorista, é tão bom não precisar me preocupar com coisas como esconder o celular no transporte público, andar com o vidro do carro aberto, parar no semáforo à noite…  É um sentimento ótimo.

Mesmo os bairros mais violentos de Boston não têm a criminalidade que as cidades do Brasil têm. Um ano em Boston é quase uma mês em Florianópolis, em comparação aos percentuais de criminalidade. Não dá pra dizer que não há assalto, furto, homicídios e tudo mais. Mas é muuuuito menos. Algo que parece distante da gente (e realmente é).

Por outro lado, por ser muito menos, quando acontecem, a mídia cai em cima, repetindo por dias a fio a mesma história.

Aproveitar cada dia

Eu vivi 28 anos da minha vida em Florianópolis, a cidade onde nasci. Não vou dizer que não aproveitei, pois nós saíamos bastante. Mas hoje sinto como se não tivesse feito tudo que deveria. Que deixei de aproveitar alguns parques, de explorar algumas praias, conhecer novos cafés e restaurantes… É aquela coisa, a gente acha que conhece uma cidade por estar há tantos anos nela, mas esquece que toda cidade muda e se reinventa a cada dia.

Quando chegamos aqui, passamos a explorar cada cantinho e até hoje tentamos manter essa curiosidade de procurar pelo novo. Depois de um ano batendo perna pelas ruas de Boston, posso dizer que ainda existem lugares que a gente vai e pensa “como ainda não tínhamos vindo aqui?”.

Não sabemos quanto tempo continuaremos em Boston, pode ser por anos ou apenas alguns meses. Então estamos tentando aproveitar cada dia, sempre com a ideia de que pode ser a última vez. É meio dramático e radical, mas sério, esse pensamento já nos fez vencer a preguiça de ficar em casa algumas vezes e acabamos conhecendo lugares incríveis!

Skyline de Boston visto do Fan Pier Park
Skyline de Boston visto do Fan Pier Park

Sobreviver às quatro estações – e admirá-las

Vivemos as quatro estações do ano em Boston. E aqui, cada uma é muito bem definida e diferente uma da outra. Parece coisa de filme. Dêem uma olhada nas fotos que fizemos em cada época, da janela do nosso apê.

Nós chegamos na primavera, que os bostonians consideram a melhor das estações, pois o verde ressurge na natureza e a cidade fica repleta de flores, em todos os lugares. Uma das marcas registradas de Boston são os canteiros de tulipas, principalmente no Public Garden. Depois veio o verão, com calor mais acentuado – mas ainda assim agradável, época em que o povo adora ir pras praias das redondezas. Até aí, tudo parecia bastante com o Brasil.

Então veio o outono, e eu fiquei boquiaberta com a beleza da fall foliage – que é o ressecamento e a queda natural das folhas. Não temos nada parecido no Brasil e nenhuma foto ou vídeo pode expressar como é ver esse fenômeno ao vivo. É apaixonante!

E por fim, claro, veio o inverno rigoroso. Quer dizer, não foi tão rigoroso quanto outros anos, mas ainda assim, para brasileiros foi bem intenso. O verde sumiu da natureza (não sobra nem a grama), a neve caiu por algumas semanas… Mas o que todos diziam que seria um tormento (passar 4 meses com temperaturas abaixo de zero), nem foi tão difícil assim.

A foto parece preto e branco, mas não é! Apenas um dia de neve intensa
A foto parece preto e branco, mas não é! Apenas um dia de neve intensa

O frio não nos incomodou tanto. Nada como ter uma casa com aquecimento interno e roupas adequadas para encarar o frio externo. O que pegou, pelo menos pra mim, foram os dias nublados e com pouca luz solar… Dá preguiça e um desânimo de sair de casa (pelo menos tiramos o atraso na lista de filmes do Netflix). Nessa época anoitece muito cedo, mais ou menos às 16h. Então parece que o dia termina rápido e logo você precisa se recolher em casa.

Foi aí que eu entendi porque os americanos do norte amam atividades ao ar livre, tipo pegar sol no parque ou fazer pique-nique. Depois do inverno, com dias gelados e de pouco sol, a primavera chega como um alívio, é tipo o fim de um período de hibernação.

Um por-do-sol no Charles River que faz tudo valer a pena.
Um por-do-sol no Charles River que faz tudo valer a pena.

Enfim, fizemos muitas coisas nesses 365 dias vivendo nos Estados Unidos. Passeamos por 8 estados diferentes e dezenas de cidades. Viajamos de carro, de trem e de avião. Exploramos Boston a pé, de ônibus, de metrô, de carona, de táxi, de Lyft, de Uber, de Zipcar. Caminhamos como nunca tínhamos feito na vida (teve dias que batemos os 20km). Visitamos museus semanalmente, degustamos comidas de dezenas de nacionalidades, conhecemos pessoas de diferentes nacionalidades. Patinamos no gelo, esquiamos, vimos shows e concertos gratuitos, fomos figurantes de filme de Hollywood e até testadores de voz de GPS. Visitamos os mesmos pontos turísticos a cada novo hóspede vindo do Brasil. E nunca enjoamos desses lugares.

Nesse período foram 145 posts no blog e uma agenda semanal de todos os eventos da cidade, criada primeiro para nós, como forma de organizarmos nossa semana, e aí divulgada para todos. E foi também a época que resolvemos nos dedicar mais ao nosso canal no Youtube e que passamos a usar o Snapchat (blogroteiros, segue lá!). O blog cresceu bastante, ganhamos novos seguidores e amigos!

Diante de tudo isso, não posso reclamar do ano que passou. Mesmo com algumas dificuldades (de adaptação, distância da família e falta de dinheiro), foram tantas coisas boas que eu repetiria tudo de novo. Espero que o próximo ano seja ainda mais positivo, pra gente e para o blog! 😉

Beijo e até a próxima!

Administradora, eterna estudante, cozinheira nas horas vagas e viciada em maquiagem.